O lobo com valores de porco

Há uns dias vi com o meu filho uma versão alternativa do filme dos três porquinhos. Neste universo paralelo, os lobos cansados de não conseguir soprar a sólida casa de tijolos, congeminam um audacioso plano supostamente infalível. A ideia era colocar à porta da casa dos porcos uma cria de lobo de forma a, no futuro, poderem contar com um agente infiltrado.

O filme prossegue com o crescimento do jovem lobo na família dos porcos e a sua educação à imagem da condição suína. Recebe o amor diário dos seus pais adotivos que o veem como um porco e lhe passam os seus valores. Adora a sua família e sente-se seguro no seu seio. Porém, o lobo estuda na escola dos porcos e, por ser diferente acaba por ser marginalizado e gozado. Não se sente enquadrado e não entende porquê.

 

Quando não vivemos os nossos Valores tudo parece perder sentido

Sentindo-se perdido foge para a floresta e aí descobre outros lobos. Depois de um processo de auto-conhecimento descobre que é na verdade um lobo e sente um poder imenso pois acredita que está agora preparado para viver o resto da sua vida em concordância com aquilo que é. Acaba por se sentir revoltado por ter vivido tanto tempo na escuridão e manifesta este sentimento perseguindo aqueles porcos que anteriormente o ostracizaram.

Renega a sua família adoptiva e alinha no plano dos lobos de os capturar. No entanto, algo está mal e a escuridão ameaça regressar. Agarrado à crença limitadora de que um lobo tem de obrigatoriamente de ser mau sente-se novamente incompleto. Uma nova pergunta surge: “Será possível ser lobo e ser bom ao mesmo tempo”. Sendo um aparente paradoxo o lobo decide que o tentará integrar.

O final do filme mostra-nos como o lobo com valores de porco percebe que pode ter um papel no mundo dos porcos e acaba por se tornar o protetor da comunidade atingindo finalmente satisfação e sentido de vida.

 

Quais são os teus Valores?

Todos nós temos um sistema de valores que nos define. Estes valores e a forma como os hierarquizamos depende de um conjunto de situações e eventos com os quais lidamos no passado e no presente. Por exemplo, a nossa família, a nossa cultura e sociedade, a escola ou os amigos.

O que acontece é que, apesar destes valores existirem e serem os nossos pilares muitos poucos de nós os conhecem. Diria até que há quem os ignore por medo, insegurança ou crenças limitadoras. Quando isto sucede estamos a abdicar de uma parte importante de quem somos e concentramo-nos apenas em fazer e ter. Absorvemos os valores socialmente aceites na esperança de que estes possam preencher o tal pilar que nos sustenta.

No fundo tentamos ser aquilo que fazemos quando deveria ser precisamente o contrário. Estamos tão preocupados em atingir um fim que agrade a outros que nos esquecemos (ou provavelmente não sabemos), que temos de saber primeiro quem somos. Às tantas percebemos que o caminho que escolhemos não nos faz feliz e não compreendemos porquê.

Não se mede o valor de um homem pelas suas roupas ou pelos bens que possui. O verdadeiro valor do homem é o seu caráter, as suas ideias e a nobreza dos seus ideais.
Charles Chaplin

Não há soluções mágicas e aqui a lógica joga a nosso favor. Não posso escolher que caminho seguir se não souber para onde quero ir. E descobrir o fim acaba por ser descobrir o início. Percebendo qual a nossa essência e valores mais profundos saberemos que é por aí que teremos de caminhar. Se nos agarrarmos aos nossos valores e os usarmos para medir as escolhas que fazemos estaremos sempre tranquilos porque estamos a fazer aquilo que somos.

Deixo aqui uma sugestão. Durante esta semana façam uma lista dos vossos valores. De seguida, coloquem-nos sobre a vossa ordem de importância. Finalmente, verifiquem se aquilo que fazem hoje em dia nas várias áreas da vossa vida respeita essa hierarquia de valores. Se a resposta for sim, então parabéns já está no bom caminho. Se for não, parabéns na mesma pois identificou o problema e isso significa que depende de si a sua resolução.

Não importa se somos lobos com valores de porco, ou porcos com valores de lobo. O que é relevante é que sejamos genuínos, únicos e honestos connosco mesmo.

E, se assim for será muito mais fácil ser feliz.

 

O Hambúrguer da Felicidade

Com muita pena minha não posso reclamar a autoria do título desta coluna. O feito deve ser atribuído a Tal Ben-Shahar, professor do mais concorrido curso de Psicologia Positiva da Universidade de Harvard. Os seus cursos registam 1400 alunos por ano o que representa 20% dos alunos daquela universidade.

O que é o Hambúrguer da Felicidade? No seu livro “Aprenda a ser Feliz”, Ben-Shahar refere a existência de quatro tipos de comportamento tomados na procura da felicidade e que são metaforicamente comparados a quatro tipos de hambúrgueres diferentes. É o chamado “Modelo do Hambúrguer”.

Os Hambúrgueres que não vais querer comer

O primeiro hambúrguer é um saboroso hambúrguer de plástico. O seu tremendo sabor, que oferece um prazer e satisfação imediata, é no entanto proporcional aos malefícios que contém e que representam um prejuízo futuro. É o arquétipo hedonista, onde a procura do prazer rápido ignora as consequências potencialmente negativas das suas acções.

Vivem assim aqueles que procuram satisfazer os seus desejos de uma forma imediata sem objectivos a longo prazo, pois ao associarem dor ao esforço evitam-no, num percurso que acabará invariavelmente na frustração.

Um insípido e sensaborão hambúrguer vegetariano representa o segundo hambúrguer do modelo. Neste caso o sacrifico imediato resulta num prejuízo presente em prol de um benefício futuro. O autor designa este hambúrguer de arquétipo do competição desenfreada que é o mais praticado na nossa sociedade, onde o estímulo é a meta e não o caminho para lá chegar. Na maioria das vezes a meta é virtual e uma vez lá chegados surge imediatamente uma nova que nos obriga a um novo sacrifício.

Começamos com as notas na escola, para depois passar para a média de acesso ao ensino superior, imediatamente substituído por uma classificação final de curso que pode dar acesso a um bom emprego onde é necessário ser o profissional mais dedicado para subir na carreira, e por aí fora num trajecto infinito e geralmente infeliz.

O pior hambúrguer do mundo é o terceiro hambúrguer e é, em partes iguais, de plástico e de sabor desagradável representando um prejuízo actual a que se segue um prejuízo futuro. É o chamado arquétipo niilista onde nos deparamos com a morte do sentido da felicidade. As pessoas que pertencem a este grupo desistiram da felicidade mostrando-se não merecedoras da mesma. Vivem agarrados ao passado não conseguindo ultrapassar questões que influenciam directamente o presente e o futuro.

“O Agora não é escolhido por ti. Ele está sempre lá. Infinitamente lá. O que realmente podes, é escolher vivê-lo.”
David Nascimento

O melhor Hambúrger do Mundo!!

Finalmente temos o hambúrguer da felicidade. Sendo simultaneamente saboroso e vegetariano oferece um benefício presente e futuro. É o arquétipo da felicidade onde se vivencia o presente de uma forma constante, consciente e grata, com vista a uma meta igualmente recompensadora.

Imaginemos um desportista que aprecia o treino diário e que a ele se dedica com prazer e afinco sabendo que no futuro irá bater os seus recordes ou ganhar determinada competição. Ou um estudante que tira uma satisfação genuína em descobrir novas ideias no presente e por isso se aplica conseguindo no futuro atingir as metas definidas.

Coaching é sobre o hambúrguer da felicidade. Um coach procura desenvolver, desafiar e apoiar os seus clientes para que possam atingir o seu potencial pessoal e profissional. Um Coach não aconselha mas promove a auto-descoberta e uma transformação na forma de pensar e agir dos seus clientes.

Coaching é sobre positivismo e confiança e devia fazer parte das nossas vidas, nas escolas, empresas e famílias.

E agora? Que hambúrguer vais decidir comer?