Pausa para a água!

Já passou uma hora e quarenta minutos. A melhor estimativa aponta para um tempo total de três horas e vinte minutos. Não é perfeito e há aspetos técnicos a melhorar. No entanto Mafalda está ali agora e é neste dia e nesta manhã que a distância tem de ser percorrida. O local é irrelevante, o público é invisível, a paisagem fica para quem veio passear. O que importa é o tempo, o recorde pessoal, a competição.

O calor aumenta e o sangue pulsa, vivo e quente. A respiração está controlada e a cadência de corrida é certa e firme. Tudo parece correr bem. Mais à frente há um posto de abastecimento de água, mas obriga a um pequeno desvio que a irá fazer perder preciosos segundos. Opta por dispensar, haverá outro mais adiante e o tempo é o objetivo último, custe o que custar.

Outros corredores abrandam, e recolhem as esponjas e os copos com água. Ao fazerem-no permitem que Mafalda ganhe uns metros de avanço e se isole. É perfeito! Sozinha tem mais hipóteses. A maratona prossegue e a distância à meta diminui. A pressa de chegar é muita e não há tempo para olhar para o lado. De repente outro corredor uns cem metros mais à frente tropeça e cai. Parece grave e Mafalda pondera o auxílio. Lembra-se porém do seu objetivo e condena a sua hesitação momentânea que a faz perder o ritmo. Ignora o acidente e esforça-se por recuperar o tempo perdido.

Um pouco mais adiante novo posto de reabastecimento que novamente ignora. Já perdeu tempo a mais. O cronómetro marca três horas e sete minutos. Falta pouco agora. Faz os restantes quilómetros com dificuldades crescentes. “Devia ter bebido água”, pensa. A meta está já à vista mas o coração começa a descompensar. A garganta está seca, o ar começa a faltar. Num instante os seus músculos desenvolvidos perdem potência e forçam a paragem. Mas Mafalda não quer vacilar. “Está quase, não posso deitar tudo a perder”.

De um momento para o outro, uma terrível dor aguda percorre todo o corpo e Mafalda sucumbe, caindo com violência no alcatrão quente. Ainda se apercebe do movimento ao seu redor e de gritos e choro. Porém gradualmente fecha os olhos e percebe que nunca mais dará outro passo. A vida para ela termina ali e é com este pensamento que dá o último suspiro e parte para sempre…

Muitos de nós vivem assim, com pressa!

No meio do turbilhão das nossas vidas, com os empregos, os filhos, as aulas, o trânsito, as dívidas e responsabilidades esquecemos muitas vezes de parar. Não ligamos às inúmeras oportunidades que a vida nos concede para parar e apreciar. Somos demasiado autocríticos e perdemos a virtude da gratidão.

É uma forma de estar infelizmente comum e que encontro muito nos meus clientes de Coaching. Todavia sei que é resolúvel e por isso trabalhamos durante as sessões para a ultrapassar. Acaba por ser simples mas tremendamente eficaz. Tornem-se gratos! Aproveitem todos os momentos para agradecer aquilo que têm. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis há sempre algo que merece o nosso obrigado.

Pick the day. Enjoy it – to the hilt. The day as it comes. People as they come… The past, I think, has helped me appreciate the present – and I don’t want to spoil any of it by fretting about the future.
Audrey Hepburn

Reúnam as vossas famílias durante o jantar, desliguem a televisão e pratiquem o hábito de agradecer. Peçam a cada um que diga em voz alta cinco situações que ocorreram durante o dia pelas quais estão gratos. Façam-no com os vossos amigos, alunos, clientes e pacientes, empregados ou colegas ou façam-no sozinhos à noite antes de adormecer. Não se preocupem se sentirem dificuldades no início. É normal. Estamos treinados para dar valor ao negativo. Com a prática torna-se mais fácil e aquilo que temos a ganhar é imenso.

Parar é importante. Avaliar o nosso percurso de tempos a tempos permite-nos corrigir o rumo e sentir-nos gratos com o caminho já percorrido. Este é um dos segredos para uma vida bem vivida e seguramente mais feliz.

Não adiem e façam já uma pausa para a água!

 

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