O marinheiro sem rota

Vasco deseja chegar às Índias. Apenas dispõe de uma jangada mal equipada, sem qualquer tipo de mecanismo de manobra ou impulsão. Afinal o mundo é redondo e é uma questão de tempo até as marés o conduzirem ao seu destino. Navega em alto mar há largos anos e já conheceu outras regiões e países.

Como vai lá parar, não sabe. Navega ao acaso sem rota nem planos. Está à deriva. Vai-se alimentando aqui e ali, sobrevivendo sem saber muito bem como. É uma vida passiva onde vive do que recebe e do que a fortuna lhe oferece. É esta a realidade que conhece. Gostaria que não fosse assim, mas quem é ele para controlar algo tão grande como os oceanos imensos.

Vai-se queixando da sua má sorte sempre que chega a um destino e descobre que não são as desejadas Índias. Lamenta-se de que a corrente o levou nessa direção ou de que o vento empurrou-o para fora do seu propósito. De quando em vez cruza-se com navios e veleiros que parecem decididos na sua navegação, cortando as ondas com determinação e dirigindo-se a um ponto específico. Brada aos céus pelo seu azar e por não ter sido um dos escolhidos para possuir uma dessas embarcações.

E lá vai o Vasco de queixume em queixume, apontando o dedo a tudo e a todos por ser um marinheiro errante. Na sua pequenez deixa-se levar, sendo atormentado por tempestades impiedosas que ameaçam destruir a sua pequena jangada, ou subjugado a um sol inclemente enquanto vagueia solitário por esse mundo fora. Já pensou em arranjar uns remos mas acha que não vão servir de nada. Comprar um motor está fora das suas possibilidades. Não sabe como fabricar uma vela e por isso nunca o fez. É mesmo azar.

E continua, saindo de mais um porto, empurrado num jeito incerto pelas marés, enquanto entoa um estranho canto lamuriento que culpa o universo pelo seu triste fado….

 

És um Homem ou és um “Vasco”?

Conheço muitos Vascos que navegam em pequenas jangadas. Vascos que se queixam da sua realidade. Vascos que acham que conseguir algo mais nas suas vidas é utopia. Vascos que apontam dedos e disparam responsabilidades para os outros.

Quando me encontro com um destes Vascos falo-lhe sobre a Teoria Causa-Efeito. Sobre a escolha que podem fazer para tomar o controlo das suas jangadas.

No fundo, há duas hipóteses de encarar a nossa realidade: “sou assim porque o universo/destino/Deus assim quis” ou “sou assim porque encarei situações no meu passado de determinada forma e tomei decisões”.

Na primeira situação estamos a colocar-nos em efeito. Dizemos que não controlamos o que nos rodeia e que não vale a pena lutar nem tentar mudar as coisas. Abdicamos do nosso poder pessoal e remetemo-nos a meros espetadores na nossa própria vida. Provavelmente temos sonhos que serão eternamente adiados, ou que aguardam que um acaso, uma sorte inesperada….o euromilhões, resolvam. O mais certo é que nunca os alcancemos.

Na segunda forma de proceder colocamo-nos em causa. Aqui, assumimos a responsabilidade. Afirmamos que podemos e devemos lutar para mudar a nossa realidade. Encaramos todos os eventos que nos surgem com um espírito criativo que nos permite avançar, mesmo que não seja exatamente como desejaríamos.

Temos consciência de que há situações que fogem do nosso controlo, como uma crise financeira, ou a morte de um parente próximo, mas a nossa atitude positiva permite-nos crescer com as adversidades e procurar a melhor situação dentro desse contexto. Alimentamos o nosso poder pessoal todos os dias e, por isso, somos mais fortes.

Já tivemos um Vasco que chegou às Índias no passado. Esse feito trouxe-nos glória e um orgulho que ainda hoje subsiste. Esse Vasco sabia o que fazia e estava preparado. Esse Vasco colocou-se em causa e venceu.

Pense na sua vida e diga para si que Vasco quer ser: o da jangada sem rumo ou o grande navegador e herói português.

 

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